Os efeitos da COVID-19 nas atividades econômicas estão impactando diretamente os mercados de investimentos tradicionais e a criptoeconomia. 

Para evitar a contaminação desenfreada, governos no mundo inteiro, incluindo o Brasil, tomaram medidas de restrição do comércio que possuem impacto direto na economia. 

O período de turbulência vem acompanhado de indicadores econômicos negativos como aumento de desemprego, disparada do câmbio e quedas na bolsa de valores. 

As criptomoedas, ou criptoativos, são tidos como ativos menos suscetíveis a momentos de crise, mas, claro, também demonstraram certa instabilidade. 

Esse contexto nos faz lançar a pergunta: quem apresenta a melhor opção de investimento, o mercado de capitais ou o mercado de criptomoedas? 

Mercado de investimentos tradicionais x Criptoativos

O cenário brasileiro para investimentos tradicionais

O mercado brasileiro convencional enfrentava dificuldades por conta de suas crises políticas e econômicas e de sua baixa nota de classificação de risco. O cenário parecia promissor e positivo em 2020 com as tentativas de implantar uma agenda de reformas para ajustar as contas públicas. 

A nota de classificação de risco é resultado de avaliação da Fitch, Standard’s & Poor’s e Moodys, que em 2015, sete anos após conceder grau de investimento ao país, retirou o selo de bom pagador do Brasil. 

A crise de saúde, política e econômica provocada pelo coronavírus tumultuou ainda mais esse cenário. Mas a perspectiva negativa não é uma previsão apenas para o contexto brasileiro, o mundo inteiro enxerga um horizonte incerto. 

No dia 05 de maio, a agência Fitch revisou novamente de forma negativa a perspectiva para nota de bom pagador do Brasil. Ou seja, a incerteza promovida pela pandemia e suas repercussões políticas tornam a situação mais complicada. 

Além disso, a crise dos preços do petróleo mostra ainda mais a instabilidade no cenário internacional. O índice da Bolsa brasileira caiu 30-40% desde o carnaval. E o dólar não para de subir, com uma valorização de 45% desde o início do ano, chegando ao patamar de R$5,70.

O cenário de criptoativos

Enquanto isso, o bitcoin, representando as criptomoedas, também enfrentou momentos difíceis. Com queda histórica em um único dia, o preço da criptomoeda passou de U$7.900,00 para U$4.970, no dia 12 de Março. 

No entanto, outros fatores internos à criptoeconomia formaram um contraponto e ajudaram a valorizar a moeda. 

O halving, que aconteceu em 11 de maio, ajudou a alavancar a cotação do bitcoin e a movimentar esta modalidade de investimento. O halving é um evento que diminui a oferta de criptomoeda, ao diminuir pela metade os bitcoins entregues por bloco verificado por mineradores. 

Por conta do choque de oferta, este evento pode ajudar a valorizar a moeda digital.  E de fato, o bitcoin registrou valorização de 37% em relação ao dólar desde janeiro. Porém, os efeitos do halving no preço do bitcoin ainda são incertos.

Mas o que faz com que as criptomoedas, em especial o Bitcoin, sejam vistas como bom investimento em períodos de crise, então? 

O fato dessas moedas não serem emitidas ou controladas por nenhum governo ou instituição financeira as tornam menos suscetíveis aos períodos de crise, já que estão alheias a ingerências locais. 

Em contrapartida, a economia convencional é muito sensível às crises econômicas, políticas e institucionais. O mercado e as bolsas, por exemplo, traduzem fatores externos de forma praticamente instantânea. 

Em momentos de crise, como o atual, algumas políticas monetárias podem ter efeitos ainda mais controversos. A opção de injetar dinheiro na economia através da impressão de moeda, considerada por alguns governos, pode formar uma onda inflacionária mundial. 

Do outro lado, o bitcoin possui um mecanismo similar ao de metais preciosos, como o ouro. Como as reservas do ouro são finitas, ele consegue preservar seu valor independentemente de fatores externos. 

O bitcoin também é uma moeda finita, com estoque pré-estabelecido de 21 milhões de bitcoins, que deve ser alcançado em 2140. Ou seja, a criptomoeda não corre o risco de sofrer pressões inflacionárias, nem ingerências externas. 

Por estes motivos, as criptomoedas costumam ser observadas como um investimento que tende a não ter erosão inflacionária no longo prazo, preservando o valor apesar das oscilações. 

Um outro ponto favorável são as diversas iniciativas de utilizar bitcoin no dia-a-dia, como as funções presentes no Alterbank. Essas iniciativas ajudam a aumentar a demanda da moeda. Quanto mais o bitcoin é utilizado no mercado tradicional, maior sua demanda e sua valorização. 

E o que explica as flutuações que ocorreram com o bitcoin, mesmo com um cenário favorável? 

O fechamento de alguns equipamentos de mineração da moeda foi recorrente no início da pandemia na China, procurando evitar contaminação. 

Como 65% dos mineradores de bitcoin estão na China, o fechamento dessas empresas pode afetar de forma negativa os mineradores de cripto, comprometendo a rede em si. Esses possíveis impactos do coronavírus na mineração, e na oferta, criam instabilidade inclusive no cenário das cripto. 

Além disso, o mercado de cripto, apesar de todo crescimento, ainda é pequeno perto de outros mercados como de ações e dívidas de governos. Essas modalidades podem ser afetadas de forma deixando cenário onde poucas vendas ou compras puxam o preço para baixo ou para cima.

E o futuro?

O governo brasileiro precisa demonstrar clareza e comprometimento com um planejamento fiscal e econômico para convencer o mercado de sua capacidade de se levantar após a crise. 

A crise política deve ser prioridade neste momento, para enfim conseguir colocar em prática políticas econômicas que melhorarem a imagem brasileira frente aos investidores e diminuam a incerteza no mercado brasileiro. 

A bolsa ainda apresenta grande volatilidade porque absorve notícias nacionais e internacionais, e precisa de cautela, pelo menos no curto prazo. 

A estimativa é que a bolsa nacional pode cair ao menos 10-15%, com um comportamento parecido às crises anteriores, como a de 2008. O melhor investimento nesse mercado deve ser feito com cautela, com atenção ao perfil de risco do investidor, e observando os impactos de longo prazo do ativo. 

Os desafios parecem mais complexos no mercado convencional, e os resultados ainda são imprevisíveis. 

A criptoeconomia também não está completamente isenta dos efeitos da crise. No entanto, a fuga de investimentos e de dólares no Brasil e as incertezas relacionadas a bolsa brasileira podem ser favoráveis às criptomoedas. 

Como o comportamento do bitcoin no Brasil segue o percurso do dólar, quando a moeda estadunidense se valoriza, o bitcoin tende a seguir o mesmo caminho. Assim, o bitcoin se apresenta como uma alternativa para se proteger da desvalorização desenfreada do Real. 

O que deve ser estimulado junto a isso é justamente sua disseminação como forma de pagamento em mercados tradicionais. 

O que nós podemos concluir é: se as criptomoedas conseguirem se manter estáveis mesmo durante este período de crise, sua reputação pode sustentar uma trajetória de sucesso como investimentos estáveis e seguros.  

Texto escrito por: Yohanna Juk – Economista, PhD em Políticas Públicas e Analista Chefe de Mercado do Alterbank